A Natura registrou forte queda no lucro líquido no segundo trimestre de 2026, em um cenário marcado pelo enfraquecimento do consumo brasileiro e pela redução das vendas. O lucro caiu de R$ 196 milhões no 2T25 para R$ 35 milhões no 2T26, uma retração de 82%.
O desempenho ocorreu ao mesmo tempo em que a receita líquida consolidada recuou 9,1%, para R$ 5,17 bilhões. No Brasil, entretanto, a retração foi ainda mais intensa, chegando a 14,8%.
O relatório aponta que o ambiente de consumo fraco, combinado com desafios operacionais internos, teve impacto maior que o inicialmente previsto sobre as marcas Natura e Avon no país.
Consumo fraco pesa sobre as vendas da Natura
O cenário brasileiro foi o principal ponto de pressão sobre o desempenho operacional da companhia.
A receita líquida no Brasil caiu 14,8% na comparação anual. A retração refletiu principalmente a indisponibilidade de produtos, agravada pelo ambiente macroeconômico adverso.
A situação atingiu diretamente as duas principais marcas da operação brasileira. A receita da Natura caiu 14,5%, enquanto a Avon apresentou retração de 22,5% no trimestre.
O desempenho mostra como o ambiente de consumo afetou a operação. Além disso, a falta de produtos reduziu o volume comercializado e prejudicou a atividade das consultoras.
Falta de produtos agrava impacto sobre o consumidor
A Natura identificou uma severa indisponibilidade de produtos durante o trimestre. O problema ocorreu durante a estabilização do novo sistema de Planejamento Integrado e a atualização do SAP.
Além disso, houve realocação de volumes após o fechamento da fábrica de Interlagos. Como consequência, os três canais de distribuição foram afetados.
O problema de abastecimento ganhou importância porque ocorreu justamente em um ambiente de consumo mais fraco.
Assim, a empresa enfrentou simultaneamente menor demanda e dificuldades para disponibilizar produtos. Esse cenário reduziu o volume do canal de venda por relações e afetou a produtividade das consultoras.
Canal de consultoras perde força
O canal de venda por relações apresentou queda de 15,9% na receita durante o segundo trimestre.
A redução refletiu a menor atividade e produtividade das consultoras. Além disso, a base média de consultoras de beleza caiu 2,6% na comparação anual.
O ambiente econômico também afetou o comportamento das consultoras. Segundo a companhia, diante do cenário macroeconômico mais difícil, as consultoras demonstraram menor disposição para manter estoques elevados. O risco de não concretizar as vendas tornou a gestão dos estoques mais cautelosa.
Esse movimento cria um efeito adicional sobre o negócio. Com menor estoque e menor disponibilidade de produtos, a capacidade de conversão das vendas também fica comprometida.
Digital também sofre desaceleração
As vendas líquidas do canal Omni/Digital recuaram 11,7% no trimestre. O resultado foi influenciado pelo impacto tributário em São Paulo. Além disso, a Natura implementou uma nova política harmonizada de preços e regras comerciais entre os canais.
A companhia pretende acelerar a utilização da plataforma Minha Loja. Além disso, prevê ampliar a presença em marketplaces para fortalecer os canais digitais.
A estratégia busca reduzir gradualmente a dependência do modelo tradicional de venda por relações.
Varejo também enfrenta impacto da transição
O varejo apresentou queda de 3% na receita no segundo trimestre. A migração dos contratos de franquia para o novo modelo provocou um desabastecimento temporário nas lojas. Como consequência, houve desaceleração do sell-in.
As vendas mesmas lojas, ou SSS, recuaram 4,3% no trimestre. Apesar disso, a rede chegou a 1.098 lojas ao final do segundo trimestre. Nos últimos 12 meses, foram abertas 74 unidades.
Lucro cai, mas resultado financeiro é principal fator
A queda do lucro líquido foi expressiva, porém o relatório mostra que o consumo fraco não explica sozinho o resultado final.
O lucro líquido caiu de R$ 196 milhões para R$ 35 milhões. Nas operações continuadas, a comparação foi de R$ 446 milhões para R$ 35 milhões.
Segundo a Natura, a redução de R$ 410 milhões na comparação anual foi explicada principalmente pela deterioração de R$ 320 milhões no resultado financeiro líquido.
Esse impacto esteve relacionado principalmente aos custos de liquidação de derivativos. Também houve efeito da base comparativa favorável registrada no ano anterior.
O resultado operacional também contribuiu para a queda. O EBIT diminuiu R$ 27 milhões na comparação anual, porque a queda do EBITDA no Brasil superou os ganhos de rentabilidade dos mercados hispânicos.
Portanto, o consumo fraco teve impacto relevante sobre as vendas e a rentabilidade operacional. Entretanto, o resultado financeiro foi o principal responsável pela forte redução do lucro líquido.
EBITDA recua 5,9% no trimestre
O EBITDA consolidado somou R$ 620 milhões no segundo trimestre. O valor representa queda de 5,9% sobre os R$ 658 milhões registrados no mesmo período de 2025.
A margem EBITDA ficou em 12%, contra 11,6% no 2T25, considerando a margem reportada.
No Brasil, entretanto, o cenário foi diferente. O EBITDA caiu 23,8%, passando de R$ 662 milhões para R$ 504 milhões. A margem EBITDA brasileira caiu para 16,4%.
Queda da receita provoca desalavancagem operacional
A queda das vendas também aumentou a pressão relativa sobre as despesas. As despesas com vendas caíram nominalmente 5,5%. Entretanto, como a receita recuou mais intensamente, essas despesas passaram a representar 43% da receita líquida, contra 38,7% no mesmo trimestre de 2025.
A Natura classifica esse movimento como desalavancagem operacional. Na prática, a companhia conseguiu reduzir determinadas despesas. Contudo, a redução não acompanhou a velocidade da queda da receita.
Esse efeito ajuda a explicar a pressão sobre a rentabilidade brasileira.
Problemas de abastecimento também aumentam custos
A falta de produtos não afetou apenas as vendas. A Natura informou que aumentou as despesas logísticas para tentar mitigar os impactos provocados pela disrupção no abastecimento. Além disso, houve aumento das provisões para perdas de crédito.
Ao mesmo tempo, a empresa reduziu despesas com vendas e marketing. Entretanto, a companhia ressalta que a queda mais acentuada da receita provocou desalavancagem operacional.
Mercados hispânicos apresentam desempenho positivo
O desempenho internacional ajudou a limitar a pressão sobre o resultado consolidado.
Nos mercados hispânicos, a receita cresceu 7,2% em moeda constante. A Natura avançou 12,3%, enquanto a Avon cresceu 4,7%.
O México foi um dos principais destaques. A maior atividade comercial no país compensou a redução anual no número de consultoras e a leve queda de produtividade.
A região também apresentou forte melhora na rentabilidade. O EBITDA alcançou R$ 160 milhões, com margem de 7,6%.
Brasil continua sendo o principal desafio
Apesar do desempenho positivo nos mercados hispânicos, o peso do Brasil impede que esses avanços compensem completamente a retração doméstica. A própria administração reconhece que os desafios operacionais brasileiros têm impacto relevante sobre o consolidado. Isso ocorre justamente pela importância do país para os negócios da companhia.
A empresa também classificou parte significativa dos problemas enfrentados no primeiro semestre como questões de execução. Segundo a administração, esses problemas não representam questões estruturais do negócio ou decisões estratégicas equivocadas.
Natura prepara recuperação para o segundo semestre
Para enfrentar os problemas, a companhia criou uma força-tarefa dedicada à cadeia de suprimentos. O objetivo é solucionar gargalos e estabilizar os sistemas de suporte durante o segundo semestre. Paralelamente, a Natura está recalibrando incentivos e estratégias comerciais.
A companhia também pretende concentrar esforços em categorias de maior giro. A expectativa é recuperar gradualmente a disponibilidade de produtos. Além disso, a empresa aposta na aceleração da plataforma Minha Loja e em novos marketplaces – como a Shopee.
Natura revisa expectativas para 2026
O desempenho do primeiro semestre levou a companhia a revisar suas ambições para 2026. A estratégia agora busca preservar o bom desempenho dos mercados hispânicos. Ao mesmo tempo, a empresa pretende recuperar gradualmente a receita no Brasil.
A Natura reconhece que o resultado ficou abaixo das expectativas iniciais. Ainda assim, a administração classifica o cenário como um revés temporário na retomada do crescimento.



























