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Fim da escala 6×1: CNI prevê alta de 6,2% nos preços, e Abrasel alerta para impacto

Entidades projetam aumento de custos, pressão inflacionária e dificuldades para manter operações. Hospitais, bares, restaurantes, condomínios e atividades industriais estão entre os segmentos que podem enfrentar maiores desafios.

Entidades projetam aumento de custos, pressão inflacionária e dificuldades para manter operações. Hospitais, bares, restaurantes, condomínios e atividades industriais estão entre os segmentos que podem enfrentar maiores desafios.
foto: Thales Brandão

O fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho podem provocar mudanças significativas na economia brasileira. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) alerta para o aumento dos custos de produção e dos preços ao consumidor. Já a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) prevê dificuldades operacionais, especialmente nos serviços que precisam funcionar continuamente.

Segundo levantamento da CNI, a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, com manutenção dos salários, pode elevar os preços ao consumidor em 6,2%, em média. A entidade também estima impactos sobre o Produto Interno Bruto (PIB), o emprego e a competitividade das empresas.

A Abrasel, por sua vez, destaca a dificuldade de substituir trabalhadores e manter a oferta de serviços. Para o presidente-executivo da entidade, Paulo Solmucci, a mudança poderá provocar fechamento de estabelecimentos, aumento de preços e precarização de serviços essenciais.

As avaliações apontam para um desafio central: como reduzir a jornada de trabalho sem comprometer a continuidade dos serviços, a capacidade de produção e o poder de compra da população?

CNI estima aumento de 6,2% nos preços ao consumidor

A CNI calcula que a redução da jornada para 40 horas semanais, mantendo os salários, elevará os custos de produção em até R$ 267,2 bilhões. Além disso, o levantamento estima uma redução de 0,7% do PIB brasileiro, equivalente a R$ 76,9 bilhões.

O estudo também projeta aumentos expressivos em diferentes categorias de consumo. Os produtos industrializados, por exemplo, podem registrar alta média de 6%.

No vestuário e nos calçados, o aumento pode chegar a 6,6%. Já as compras de supermercado podem ficar 5,7% mais caras, segundo as estimativas apresentadas pela entidade.

Para a CNI, a redução da jornada exige adaptações na organização do trabalho e nos processos produtivos. As empresas precisarão reorganizar escalas, redistribuir tarefas e avaliar a necessidade de novas contratações.

O presidente da entidade, Ricardo Alban, criticou a aprovação da proposta sem maior debate público.

“Lamentamos que a votação tenha sido feita sem mais debates com a sociedade brasileira e entendemos que os impactos dessa medida não foram devidamente mensurados”, afirma Alban.

O dirigente também defende que o Congresso Nacional possa reavaliar o tema caso sejam constatadas perdas de competitividade e pressões inflacionárias.

Abrasel alerta para dificuldades nos serviços essenciais

A Abrasel avalia que o fim da escala 6×1 poderá afetar diretamente empresas que precisam manter atendimento frequente ou ininterrupto. O impacto tende a ser mais complexo nos estabelecimentos que dependem de equipes presenciais durante vários períodos do dia.

Paulo Solmucci afirma que aproximadamente 15 milhões de trabalhadores atuam atualmente na escala 6×1. Caso esses profissionais passem a trabalhar um dia a menos, a entidade estima que seriam necessários mais 3 milhões de trabalhadores para preservar a oferta atual de serviços.

“Para manter a mesma oferta de serviços e cobrir esse dia, o país precisaria de mais 3 milhões de trabalhadores. Onde encontrar essa mão de obra?”, questiona Solmucci.

Na avaliação da entidade, a dificuldade de contratação poderá levar empresas a reduzir o horário de funcionamento. Além disso, estabelecimentos que mantiverem a operação precisarão avaliar a ampliação das equipes e os custos adicionais.

O representante também alerta para o risco de aumento de preços e perda de poder aquisitivo. Com serviços mais caros, as famílias poderão reduzir o consumo, afetando inclusive bares e restaurantes.

Quais setores podem ser mais impactados pelo fim da escala 6×1?

Os efeitos dependerão das regras definitivas, das características de cada atividade e da capacidade de reorganização das empresas. Entretanto, setores que exigem cobertura frequente de equipes ou atendimento contínuo merecem atenção especial.

1. Hospitais, clínicas e serviços de saúde

Os serviços de saúde estão entre as atividades que exigem maior atenção, especialmente quando precisam funcionar 24 horas por dia. Hospitais e unidades de atendimento emergencial dependem de equipes distribuídas em diferentes turnos para manter a assistência.

Com a redução da jornada, as instituições poderão precisar reorganizar escalas e contratar profissionais adicionais para cobrir os períodos de atendimento. Se houver dificuldade para preencher essas vagas, a manutenção da capacidade operacional poderá se tornar um desafio.

Solmucci cita justamente o risco de dificuldades na continuidade dos serviços hospitalares. Ele menciona uma manifestação de Francisco Balestrin, representante de hospitais e clínicas de São Paulo, que defendeu uma legislação específica para o setor.

Os impactos, contudo, dependerão das regras aplicáveis e das condições de cada instituição. Não há, nas informações apresentadas, uma estimativa específica de aumento de custos para hospitais.

2. Portaria, segurança e serviços em condomínios

Condomínios residenciais também podem enfrentar pressão sobre os custos. Portarias, controle de acesso e outras atividades presenciais exigem cobertura de profissionais em horários definidos, inclusive durante a noite.

Segundo Solmucci, os condomínios poderão registrar aumento de 18% a 20% nas despesas para manter a mesma estrutura de serviços.

A necessidade de reorganizar equipes pode exigir novas contratações ou mudanças nos contratos com prestadores. Consequentemente, parte desse aumento poderá ser repassada aos moradores por meio das taxas condominiais.

3. Bares, restaurantes e serviços de alimentação

Bares e restaurantes aparecem entre os segmentos diretamente citados pela Abrasel. Muitos estabelecimentos funcionam durante o almoço e o jantar, enquanto outros mantêm atendimento até a madrugada.

A redução da jornada pode exigir mais profissionais para cobrir os mesmos horários. Entretanto, nem todos os negócios terão demanda suficiente ou recursos financeiros para ampliar suas equipes.

Segundo a Abrasel, um estabelecimento que quiser continuar aberto seis dias por semana poderá enfrentar aumento de 20% nos custos. Diante dessa pressão, alguns negócios poderão reduzir os dias de funcionamento, enquanto outros precisarão reajustar preços.

O cenário também pode afetar o consumo. Se as refeições e os serviços ficarem mais caros, parte dos clientes poderá diminuir a frequência de visitas.

4. Indústria e operações produtivas

A indústria também precisará adaptar seus processos à eventual redução da jornada semanal. Dependendo da atividade, a reorganização poderá envolver turnos, escalas, distribuição de tarefas e contratação de trabalhadores.

Nas operações que funcionam continuamente, a necessidade de manter equipamentos e processos em atividade pode tornar a gestão das equipes mais complexa. A empresa precisará avaliar como cobrir os horários sem comprometer a produção.

A CNI estima que os custos de produção possam aumentar em até R$ 267,2 bilhões, considerando a redução para 40 horas semanais e a manutenção dos salários.

A entidade também aponta riscos para a competitividade internacional. Empresas com custos maiores poderão enfrentar dificuldades para preservar preços e margens diante da concorrência.

5. Supermercados e comércio varejista

Supermercados e outros estabelecimentos comerciais também precisarão avaliar a reorganização das equipes. O impacto dependerá dos horários de funcionamento, da demanda e da quantidade de trabalhadores necessária em cada turno.

A CNI estima que os preços das compras de supermercado poderão subir 5,7%. Essa projeção está relacionada aos efeitos econômicos considerados no levantamento da entidade e não representa um reajuste já confirmado pelo setor.

No comércio que funciona à noite, aos domingos ou durante feriados, a cobertura de escalas poderá exigir mudanças adicionais. A necessidade de contratar profissionais ou redistribuir jornadas dependerá das condições de cada empresa.

6. Serviços que funcionam 24 horas

Atividades com atendimento ininterrupto merecem atenção especial porque não podem simplesmente interromper suas operações para compensar a redução da jornada.

Hospitais, serviços de emergência e portarias com cobertura contínua precisam garantir profissionais durante todos os períodos. Além disso, operações industriais ininterruptas podem exigir equipes distribuídas em diferentes turnos.

Nesses casos, a principal dificuldade será conciliar a redução das horas trabalhadas com a manutenção da cobertura operacional. Se não houver trabalhadores suficientes, as empresas poderão enfrentar custos adicionais, mudanças de escala ou limitações na prestação dos serviços.

A intensidade dos impactos, porém, dependerá das regras finais, dos acordos de trabalho, da disponibilidade de mão de obra e das particularidades de cada atividade.

Abrasel prevê aumento de custos e risco de fechamento de estabelecimentos

Para a Abrasel, a redução da jornada poderá desencadear uma sequência de efeitos econômicos. Primeiro, algumas empresas poderão reduzir o atendimento ou fechar em dias adicionais. Em seguida, os estabelecimentos que mantiverem a operação poderão elevar preços para compensar os custos.

Solmucci afirma que a pressão financeira poderá atingir diferentes atividades econômicas, incluindo os serviços prestados em condomínios e estabelecimentos de alimentação.

“O que a gente vê é uma primeira onda de precarização enorme dos serviços. Logo em seguida, aumento de custo, inflação grande e perda de poder aquisitivo da população, o que afeta inclusive o setor de bares e restaurantes, porque menos dinheiro no bolso significa menos consumo”, explica.

O dirigente também menciona o risco de recessão. Segundo sua avaliação, a queda do consumo e a manutenção de juros elevados poderiam agravar o cenário econômico.

Essas declarações representam as projeções da entidade. A dimensão dos efeitos dependerá das condições econômicas, da implementação das mudanças e da capacidade de adaptação das empresas.

Trabalho por hora aparece como alternativa defendida pela Abrasel

Solmucci defende maior flexibilidade nas modalidades de contratação. Na avaliação do executivo, o trabalho remunerado por hora poderia permitir que profissionais escolhessem os dias e os períodos em que desejam trabalhar.

Ele afirma que essa modalidade poderia facilitar a organização das rotinas familiares e melhorar a compatibilidade entre trabalho e vida pessoal.

O presidente-executivo da Abrasel também sustenta que a remuneração por hora pode superar proporcionalmente a de trabalhadores mensalistas em determinadas atividades. Para o Brasil, cita diferenças de 30% a 40% em bares e restaurantes.

A proposta, entretanto, representa a visão defendida pelo dirigente. Sua eventual aplicação depende das regras legais e das condições contratuais pertinentes.

Quais serão os efeitos para trabalhadores e consumidores?

O debate envolve diferentes interesses econômicos e sociais. Para os trabalhadores, a redução da jornada pode representar mais tempo livre, desde que as condições de remuneração e emprego sejam preservadas.

Para as empresas, o desafio será manter a produtividade e a cobertura das operações. A necessidade de contratar mais profissionais poderá elevar custos, especialmente em atividades intensivas em mão de obra.

Já os consumidores poderão sentir os efeitos caso parte dos aumentos seja repassada aos preços. Além disso, a redução dos horários de atendimento poderá limitar o acesso a determinados serviços.

As projeções da CNI e os alertas da Abrasel reforçam a importância de avaliar os impactos por setor. Também será necessário acompanhar como as empresas reorganizarão suas operações e como as regras definitivas serão aplicadas.

O ponto central será encontrar condições que conciliem qualidade de vida dos trabalhadores, continuidade dos serviços, sustentabilidade financeira das empresas e proteção do poder de compra da população.

CidadeMarketing com informações da Abrasel e CNI.

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