Entre os segmentos do varejo, o de supermercados se destaca por ser um dos poucos a não ter registrado queda das vendas no pior momento da crise, no final do ano passado. Tradicionalmente, os supermercados são vistos como uma opção defensiva, porque sua receita tende a apresentar menor sensibilidade à variação de poder de compra e ao estreitamento do crédito. "Os gastos com alimentos são os últimos a serem cortados durante uma crise", lembra o analista da corretora Link, Rafael Cintra, ao calcular que as vendas de alimentos no Pão de Açúcar, por exemplo, representam 75% da receita.
Mesmo com o avanço do desemprego, o Pão de Açúcar registrou nos quatro primeiros meses do ano um crescimento de 9,2% nas vendas em unidades com mais de um ano de funcionamento, em comparação com o mesmo período de 2008, o que representou um aumento real de 3,3%, quando deflacionado pelo IPCA, o índice oficial de inflação.
"Nas Lojas Americanas ocorre um efeito de empresa defensiva parecido ao do Pão de Açúcar", explica Cintra. Segundo ele, o gasto médio nas lojas da rede é considerado baixo (cerca de R$ 30), o que faz com que essas compras também estejam entre as últimas a serem cortadas pelos consumidores.
Na análise da corretora Ativa, a queda da Selic também terá efeito positivo sobre o elevado nível de endividamento da Lojas Americanas. Nos quatro primeiros meses do ano, as vendas da Lojas Americanas em unidades com mais de um ano de funcionamento subiram 11%. No acumulado do ano, até o pregão de ontem, as ações preferenciais da empresa já subiram 50%.
Por já terem subido muito no ano, ambas as empresas devem ficar sem tendência definida até o fim de 2009. Para Ping Ho, elas podem acompanhar o desempenho da Bolsa e, se houver uma realização, devem cair menos, devido à característica defensiva.
Roupas
No segmento de tecidos e roupas, os balanços do primeiro trimestre de varejistas como Lojas Renner e Marisa indicaram redução de vendas, devido ao excesso de "cautela" na composição de seus estoques para janeiro, quando o cenário ainda era bastante incerto. A Marisa apresentou queda de 3% nas vendas no conceito mesmas lojas no primeiro trimestre do ano, mas declarou, em teleconferência com analistas, que teria avançado até 1% se não tivesse optado pela expectativa de piora no cenário macroeconômico.
No mesmo período, a Lojas Renner apresentou redução de 12% nas vendas pelo mesmo critério, mas avaliou que esse resultado refletiu o "fundo do poço" da crise. Segundo a empresa, já foi percebida uma recuperação "lenta, mas consistente" em abril, que deve se manter nos próximos meses. A companhia destacou que promoveu o ajuste nos estoques e melhorou as condições de crediário, com a redução de 6,5% para 5,99% a partir de maio da taxa de juros cobrada mensalmente nas compras parceladas.
O analista da Planner lembra também que os balanços do primeiro trimestre ainda trazem efeitos do aumento de custos de produção no ano passado, quando as commodities avançaram. "A alta deste segmento se deveu à euforia da Bolsa, mas ainda não enxergo números positivos que justifiquem o avanço", diz. Se comparadas a outros segmentos dentro do setor de varejo, afirma Cintra, as ações de empresas de vestuário são mais arriscadas.