A vontade de beber cerveja ajuda a explicar o principio da sociedade civilizada. É o que defende o biólogo e historiador natural alemão Josef H. Reichholf, professor da Universidade Técnica de Munique. Em 2008, o professor lançou um livro ("Warum die Menschen sesshaft wurden" ou "Por que os homens se tornaram sedentários", em tradução livre), com uma tese sobre o início do sedentarismo, quando o ser humano deu inicio ao cultivo agrícola. Segundo Reichholf, o objetivo principal não era fabricar pão para melhorar a alimentação. A ideia era produzir cerveja por meio da fermentação de cereais. Ainda de acordo com o professor alemão, as primeiras regiões de assentamento sedentário da humanidade, que vão do Egito à Mesopotâmia, eram ricas em caça. Por isso, não haveria por que abandonar essa forma de subsistência.
Reichholf não é o único a defender essa teoria. O falecido antropólogo Alan. D. Earnes (1947-2007) e o professor Salomon Katz, da Universidade da Pensilvânia, já acreditavam que a cerveja, mais do que o pão, teve um papel preponderante no princípio da civilização. O certo é que com a Revolução Neolítica, há aproximadamente 10.000 anos, o ser humano fundou vilas e começou a cultivar a terra. E a cerveja é uma das muitas descobertas daquela era, quando surgiram a roda, a escrita e a cerâmica.
Invenção ou obra do acaso? A última teoria é bastante aceita. Acredita-se na hipótese de que a cerveja rudimentar apareceu por uma série de coincidências que desencadearam o processo natural. Cereais esquecidos em vasos podem ter sido misturados à água. O amido transformou-se em açúcares. Os grãos teriam sido secos e, depois, uma nova mistura com a água, somada à ação de leveduras naturais, abriu condições para fermentar os açúcares presente nos cereais.
Certo é que existem indícios de que a cerveja já existia na Mesopotâmia, região hoje ocupada pelo Iraque, em 4.000 A.C. A cerveja era a bebida mais popular na Mesopotâmia. Uma peça de argila daquele período, presente no acervo do British Museum, é um indicador. Um dos primeiros exemplos da escrita em forma de pictogramas desenhados em barro com um instrumento afiado, a peça tem as rações de cerveja atribuídas aos trabalhadores por administradores dos templos.
Em Tebas (Egito), há registros da fabricação de cerveja em 3.400 A.C. Escavações arqueológicas encontraram cestas cheias de cereais ao lado de tesouros de faraós. No Templo do Sol, da Rainha Nefertite, foi descoberta uma cozinha onde se fazia cerveja com cevada, principal malte na fabricação das bebidas de hoje. Durante o Reino Médio (cerca de 2040-1750 aC), os egípcios mais abastados muitas vezes colocavam modelos de madeira pintados em seus túmulos para garantir que as oferendas poderiam ser fornecidas magicamente no pós-vida. É o que pode ser visto em outro exemplar arqueológico do British Museum, que apresenta etapas da fabricação de pão e cerveja.
Em 2.000 A.C, os chineses produziam cerveja de painço (tsiou). No Egito, construtores das pirâmides eram recompensados com a bebida após o trabalho. Um papiro, datado de 1.000 A.C, falava de dois tipos: Dizythum (mais forte) e Busa (mais fraca). Nos tempos de Cristo, historiadores romanos já registravam 195 diferentes tipos da bebida. Bebidas alcoólicas feitas da fermentação de cereais e outras plantas também eram conhecidas em outras partes do mundo. Na África usavam o sorgo e o milheto. Os chineses, por sua vez, faziam cerveja de arroz. Já os índios brasileiros fermentavam mandioca.
No inicio da Era Cristã, o Império Romano levou para a Europa o método de produção de cerveja. No século I d.C., a cerveja já era produzida pelos antepassados dos alemães e dos franceses e logo alcançou outras regiões do continente. Como os países do Mediterrâneo já cultivavam uvas para a produção de vinho, a cerveja ganhou mais espaço em outras regiões da Europa, mais frias.