Para dar nome a uma marca, David Placek conta com uma equipe de 26
pessoas em seu escritório, o Lexicon Branding, sediado em Sausalito,
Califórnia. Mais 80 lingüistas espalhados por 40 países ao redor do
mundo fazem análises para garantir que uma palavra em inglês, por
exemplo, não tem uma conotação completamente negativa quando levada
para outra cultura.
O processo, chamado de "naming", é requisitado por grandes empresas,
como Apple, Microsoft e RIM. PowerBook, Zune e BlackBerry, produtos
dessas três marcas, foram nomeados por Placek e sua equipe ao longo de
26 anos de atividade --no total, ele estima já ter dado nome a 2.000
negócios. Na entrevista concedida à Folha por telefone, ele detalha como é feito o trabalho.
Folha - Como é o processo de escolher o nome de uma empresa e de um produto?
David Placek - O processo começa a partir do momento em que
entendemos exatamente o que o cliente está tentando fazer, e o que os
consumidores já estão fazendo e pensando sobre a categoria em que a
empresa atua, ou em relação a uma marca específica.
O segundo estágio é desenvolver um esqueleto para o papel que esse
nome deve exercer ao se comunicar com o consumidor, criando uma
personalidade única. A idéia é transmitir uma nova idéia e uma nova
personalidade ao produto.
A terceira fase é a do trabalho criativo. Trabalhamos em times
pequenos, de duas pessoas. Há grupos de lingüistas que nos ajudam a
entender sons, pedaços de palavras. O quarto passo é uma série de
sessões com os clientes para ver o que está funcionando.
O quinto estágio é dar uma olhada apurada no esqueleto criativo,
refiná-lo. A partir daí, duplicamos o processo novamente. Temos 82
lingüistas em mais de 40 países. Eles trabalham para ter certeza que
algo como BlackBerry não tem conotações negativas, nem signifique algo
que poderia confundir o consumidor. O processo demora entre seis e dez
semanas.
Depois, vamos falar com consumidores para saber qual é o sentimento
deles em relação a esse novo produto. É um processo criativo e bastante
disciplinado.
Folha - O que uma marca espera quando solicita um trabalho como o seu?
Placek - As empresas sabem que o mercado é competitivo e que o
nome da marca é o princípio da personalidade dela, é o que chama a
atenção dos consumidores. As empresas vêem o nome como estratégia.
Outras companhias podem achar que qualquer nome funciona se você
tiver um bom produto. Mas pessoas com muita experiência tomam um
caminho diferente. O nome de uma marca é estratégico para o sucesso
dela. Você não está criando uma palavra, mas um pedaço de propriedade
intelectual que a companhia terá.
Olhando a competição, a longo prazo, o nome é a única coisa que não
podem tirar você. Podem até mexer com cores, padrões, logotipos, mas o
nome é o pedaço da propriedade que você pode proteger pelo tempo que
durar o produto.
Folha - Como lidar com a pressão de ter que escolher um nome, quando existem cada vez mais produtos?
Placek - Existem milhões de marcas de tecnologia registradas nos
Estados Unidos. E apenas 26 letras no alfabeto. É difícil. Mas o fato é
que muitos marqueteiros sabem que bons nomes, bem construídos,
representam vantagens nas estratégias competitivas.
Folha - Quais são os aspectos mais fortes que um nome de uma marca devem ter?
Placek - Eles devem ter uma autêntica ligação com o que a marca
é. Gostamos de criar nomes simples. Palavras simples são as melhores.
Tentamos criar nomes naturais --nem sempre estão no dicionário. Eles
são simples de pronunciar, têm um bom ritmo. A coisa mais difícil de
fazer: na categoria em que o produto vai competir, queremos ser
distintivamente originais e únicos, representando uma nova idéia.
Folha - É comum vocês chegarem a um nome e, fazendo uma análise mais detalhada, perceberem que ele já existe?
Placek - Isso acontece bastante e é frustrante. Mas você tem que ter disciplina para continuar procurando.
Folha - Como você chegou ao famoso nome BlackBerry?
Placek - Nas pesquisas iniciais que fizemos, falávamos com as
pessoas sobre e-mail. E percebemos que, quando se fala de e-mail, a
pressão sangüínea das pessoas sobe. Se você é um executivo, recebe
milhares de e-mails por dia, incluindo lixo. Nós queríamos criar algo
que pudesse deleitar os consumidores. Tornar um e-mail um processo de
comunicação prazeroso. E não queríamos algo que tivesse o nome e-mail,
porque sabíamos que a tendência era a tecnologia começar a combinar
e-mail, telefone, mensagens de texto. Queríamos algo que tivesse
flexibilidade. Aí apareceu na lista o nome BlackBerry.
A letra b tem um som que exprime confiança. Preto [black] é uma cor
industrial, tecnológica. Berry [cereja] é fácil de pronunciar. Não é
reconhecida ao redor do mundo, mas é uma parte reconhecível em várias
línguas. Pensamos na fruta e vimos que o teclado se assemelhava a
sementes.
Folha - E o Zune?
Placek - O competidor era o iPod. Não queríamos reproduzir isso
de forma alguma. Eliminamos todas essas letras. Zune soa como tune
[tom], é rápido, pequeno, um nome muito musical. Tem apenas quatro
letras, uma boa construção --consoante, vogal, consoante, vogal.
Fizemos pesquisas ao redor do mundo e o nome foi bem recebido pelos
consumidores.
Folha - Existe algum nome que você se arrepende de ter criado?
Placek - É sempre uma questão complicada de responder. Mas posso dizer que, em todos esses anos, não tivemos nenhuma grande decepção.
Folha - E você gostaria de ter criado algum nome famoso hoje em dia?
Placek - Oracle é um bom nome. Apple e Dreamworks também. Esses três vêm à minha mente.
Folha - E Google?
Placek - Claro, seria outro, pode apostar! E é interessante,
porque acho Google um nome muito mais forte que Yahoo!. Os dois "g",
assim como no BlackBerry, inspiram confiança. Os dois "o" são bem
cheios. Yahoo! tem conotações positivas e negativas.
Folha - Quanto custa nomear uma marca?
Placek - Geralmente, nossos projetos variam de US$ 50 mil a US$
150 mil. O preço mais alto significa uma pesquisa com consumidores ao
redor do mundo. Em relação aos gastos que a companhia vai ter para
começar, é uma porcentagem bem pequena.