Os celebrados princípios e filosofias empresariais da Toyota Motor Corp. são estudados e admirados há anos, o que criou uma horda de gurus e consultores de administração que pregam a ideologia da empresa como o segredo para o sucesso. Mas esses princípios agora estão sob fogo cerrado diante dos recalls e problemas de qualidade da montadora.
A intensa pressão sobre a empresa ficou evidente ontem, quando seu presidente Akio Toyoda participou de um segundo dia de audiências no Congresso dos Estados Unidos sobre os incidentes de aceleração involuntária com carros Toyota. Em meio a duras críticas de políticos, Toyoda mais uma vez pediu desculpas pelos acidentes que ocorreram com carros da montadora e reafirmou a crença da empresa de que a origem do problema não é eletrônica - hipótese pela a qual o problema continuaria existindo, já que os recalls não tratam do sistema eletrônico de controle da aceleração.
"Sinceramente, temo que crescemos num ritmo rápido demais", disse Toyoda, de 53 anos, que é neto do fundador da empresa. "Lamento que isso tenha resultado nos problemas de segurança descritos nos recalls que enfrentamos hoje." Mas, apesar de a crise ter provocado uma reavaliação dos métodos de produção da Toyota, os discípulos da filosofia continuam prontos a defendê-la, alegando que aderir rigidamente a esses princípios - e não os abandonar - é que vai ajudar a montadora a recuperar sua reputação.
Como o processo "Seis Sigma" popularizado pela General Electric Co., o "Método Toyota" inspirou dezenas de livros e seus princípios são aplicados a uma variedade de indústrias e empresas. O conceito de "kaizen", ou melhoria contínua, e a eliminação do desperdício, ou "muda", foram tão ensinados que se tornaram parte do léxico empresarial do mundo. Da linha de montagem à sala do conselho, o conjunto de princípios da Toyota incentivou os empregados a buscar a perfeição, o que ajudou na ascensão da empresa de uma fabricante de teares de Nagoia ao posto de maior montadora do mundo.
O Método Toyota determina planejamento de longo prazo; ressaltar problemas em vez de escondê-los; incentivar o trabalho em equipe com os colegas e fornecedores; e, talvez mais importante, instilar uma cultura autocrítica que acalenta um processo implacável e contínuo de melhoria dos produtos. Ainda não está claro se os problemas da Toyota foram causados pela abdicação desses princípios ou se seguir a metodologia não foi suficiente para evitar uma enorme queda da qualidade.
Mikiharu Aoki, que trabalhou na empresa durante 26 anos, fundou a Toyota Production Consulting Corp. em 2007 para prestar consultoria a empresas sobre o método de manufatura enxuta da montadora. Ele diz que os telefonemas de interessados pararam desde que os problemas da Toyota começaram a surgir. Ele desistiu de um seminário que realizaria na Coreia do Sul esta semana depois que dois terços dos inscritos cancelaram. Quando os clientes perguntam sobre os métodos da Toyota, Aoki, cuja empresa não tem ligação com a montadora, diz que o sistema de produção dela não desmoronou.
"É só que a Toyota não cumpriu o que ensinou aos outros", disse Aoki, que já escreveu dois livros sobre o Sistema de Produção Toyota, o processo industrial criado pela montadora para eliminar desperdício e melhorar a qualidade. "Ela não seguiu os princípios que criou." Num artigo de opinião na edição de terça-feira do Wall Street Journal, o presidente da Toyota, Akio Toyoda, afirmou que continua acreditando no Método Toyota: "Estou convencido de que o único jeito de a Toyota emergir fortalecida dessa experiência é aderir ainda mais rigidamente a ele."
O Sistema de Produção da Toyota é estudado cuidadosamente na China e no resto da Ásia por empresas que gostariam de ultrapassar algum dia seus concorrentes maiores, assim como a Toyota deixou na poeira as grandes montadoras de Detroit: General Motors, Ford e Chrysler. Jeffrey Liker, professor de engenharia industrial e de operações da Universidade de Michigan e autor de "A Cultura Toyota", diz que não percebeu um declínio no interesse por seus serviços de consultoria ou palestras, embora o movimento já tivesse diminuído por causa da crise econômica. Na verdade, as vendas de seu livro aumentaram por causa da atenção que a empresa tem recebido.
"Os princípios do Sistema Toyota foram comprovados no espaço de 60 anos", diz Liker. "Se você mudar suas políticas de administração interna toda vez que a empresa sobre a qual tenta aprender algo tem um ano ruim, vai acabar vagando de uma prática empresarial à outra." Com base em mais de 25 anos de estudos sobre a empresa, Liker diz que a Toyota "não vai desperdiçar essa crise". Ele diz que os problemas permitirão que Toyoda aperte o botão de reiniciar e retorne a empresa aos princípios básicos do Método Toyota.