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08/01/2010 - 21h30

Consumidor abraça geladeira, e lojista faz aeróbica de madrugada em megaliquidação

Dentro da loja, a bagunça é de outro tipo. O gerente pula, dança e canta ao microfone.
UOL

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ALTERA O
TAMANHO DA LETRA

As ruas estariam desertas se não fosse a Kombi entregadora de jornais e os frequentadores dos inferninhos de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, saindo de suas aventuras amorosas. Mas, dobrando a esquina na madrugada, lá está uma multidão na esquina da avenida Faria Lima com a rua Teodoro Sampaio.

 

São 4h30 desta sexta-feira (8), e as pessoas se aglomeram para a abertura da temporada de liquidação. Na fila, poucas pessoas dormem ou jogam cartas. A maioria está apreensiva, afinal, dali a meia hora a porta de aço se abrirá para o mundo maravilhoso das mercadorias. A distribuição de senhas causa confusão, além do bate-boca com os furadores de fila, reclamações com os seguranças, e gente indo parar na ambulância.

 

Dentro da loja, a bagunça é de outro tipo. O gerente pula, dança e canta ao microfone. "Vamos lá, animação, esse é o verdadeiro saldão. Vamos trabalhar", grita para as vendedoras, que agem como animadoras de auditório, com mãos para cima, fazendo coreografias.

 

No alto-falante toca "Maria, Maria", de Milton Nascimento, com o verso "uma gente que ri quando deve chorar/E não vive, apenas aguenta". Essa gente entra no magazine e dispara entre corredores e gôndolas. Abraça geladeiras como se fosse um parente que não vê faz tempo. Na seção de televisores, as pessoas ficam com a mão nas telas como se tivessem tocando a imagem de um santo, mas a função do gesto é marcar que o produto é seu.

 

Como uma halterofilista olímpica, uma garota levanta uma lavadora de roupa. "Licença, licença, licença", pede um rapaz equilibrando seis caixas com panelas de pressão, cada uma a um preço de R$ 8.  As já tradicionais megaliquidações das redes varejistas Magazine Luiza e Ponto Frio querem queimar os estoques de fim de ano. Com descontos de até 70%, as imagens nas lojas parecem de um verdadeiro saque, com a diferença de que as pessoas têm que estender seus cartões de crédito no caixa.

 

As filas na porta começam já na quarta-feira, quase 48 horas antes da abertura. A devastação dura menos que a espera. "Às 14h, a loja vai ficar limpinha", imagina o gerente da filial de Pinheiros do Magazine Luiza, mais calmo depois da ginástica que fez para animar seus funcionários.

 

A estratégia mais eficiente dos consumidores era trabalhar em time. Famílias inteiras corriam para atualizar os eletrodomésticos e o mobiliário de suas casas. Em geral, a matriarca cuidava da montanha de pacotes, enquanto os mais jovens se encarregavam de amontoar mais coisas.  Já as crianças estavam emburradas por acordar cedo e faziam cara de entediadas vendo os adultos abraçarem produtos como se fossem brinquedos. "Minha tia me prometeu uma boneca, mas até agora não vi nada", reclamava uma menina sentada no tranquilo setor de mesas.

 

A balbúrdia mesmo estava nos corredores dos eletrônicos e dos eletrodomésticos. "As pessoas querem tecnologia. No campo, a felicidade é nadar nos rios. Na cidade, a diversão é comprar", teve tempo de teorizar uma consumidora, que saltitava de alegria ao fisgar uma geladeira e um fogão. Só para registrar: o slogan do Magazine Luiza, local desta reportagem, é "Vem ser feliz".



 
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www.joww.net | Johnatan Oliveira