O enorme crescimento da competição fruto da globalização e do salto
tecnológico e, uma maior maturidade do capitalismo criou nas empresas um
comportamento obsessivo que requer atenção.
Hoje, os maiores interessados em tornar nossos produtos obsoletos
somos nós mesmos; e devemos fazer isto antes que a concorrência o faça.
Com o avanço da tecnologia ficou cada vez mais fácil fazer benchmarking e
engenharia reversa, possibilitando a oferta de produtos tecnicamente
parecidos, a preços semelhantes no mercado.
Frente a esta realidade, torna-se indispensável a criação contínua de
novos diferenciais competitivos. Redescobrindo o poder da sedução dos
consumidores pelo novo, as empresas se lançaram em uma busca nem sempre
refletida de inovações.
Ainda que a inovação seja uma premissa atual, ela tende a ser, por
outro lado, cada vez mais difícil e onerosa de manter-se ao longo do
tempo. E é exatamente nisto que consiste o paradoxo da inovação:
"Quanto mais inovamos mais difíceis se tornam as próximas inovações
e, portanto, a manutenção de uma estratégia competitiva baseada apenas
na inovação".
A implantação de cada inovação tende a custar mais que a anterior
porque para inovar são necessários novos aportes financeiros para
pesquisa, desenvolvimento, planejamento, produção, marketing e
comercialização. Eis o risco de cada inovação; se o mercado assimilar
como valor este "novo" que estamos ofertando, todo nosso dispêndio terá
sido investimento. Se não responder desta maneira, nosso dispêndio
transforma-se imediatamente em custo!
Todo produto possui um ponto "ótimo", a partir do qual as novas
modificações (inovações) começam a agregar um valor percebido cada vez
menor. Partindo da clássica visão de marketing onde quem compra uma
furadeira não precisa dela e sim dos furos, vemos que enquanto algumas
empresas estão insistindo em inovar furadeiras (inovação redundante),
outras podem investir em um novo paradigma para obter furos (inovação
consistente).
A inovação ingenuamente conduzida pode estar na contramão de outra
característica da competitividade atual: a redução de custos. Como lidar
com estas ambiguidades?
O primeiro desafio é justamente vencer o comportamento obsessivo de
fazer as coisas compulsiva e repetidamente sem a devida reflexão sobre
suas repercussões no curto, médio e longo prazo. Ao adotar tal
comportamento, as empresas se esquecem de perguntar qual é realmente a
melhor estratégia para chegar ao resultado esperado.
Considerar apenas os aspectos positivos da estratégia centrada na
inovação é equivalente a idealizar ingenuamente a diferenciação como o
remédio para todos os males. A inovação não traz apenas benefícios,
assim como o aumento do crédito e das exportações também não; é difícil
encontrarmos no mundo algo que traga somente benefícios!
É fundamental observarmos a inovação dentro do contexto geral do
negócio e não isoladamente; o vício de isolar uma só variável é a causa
de muitas lacunas nas estratégias empresariais. Esta não é apenas a era
da inovação, mas também a da inclusão, da redução de custos, das
margens estreitas, da concorrência globalizada, da análise do risco, da
busca de clusters, da inteligência competitiva, etc.
Cada uma destas variáveis altera as repercussões de cada inovação que
introduzimos no mercado e seus efeitos sobre o nosso negócio. Ainda
que teoricamente as possibilidades de inovar sejam ilimitadas, há um
momento em cada mercado onde uma inovação adicional não compensa os
esforços necessários para introduzi-la.
Veja este exemplo envolvendo a IBM, Apple e Intel. A Apple sempre foi
reconhecida por seu foco em inovação e performance. Como a Apple já
representava uma parcela pequena dentro dos negócios da IBM, tornou-se
desinteressante para a IBM continuar investindo nas inovações
solicitadas pela Apple na fabricação de processadores.
Para a Apple fazia-se necessária uma redução no custo de produção dos
chips para ofertar seus computadores a preços competitivos no mercado,
aumentando sua base de clientes. Como a Intel disponibiliza chips de
excelente qualidade a preços muito competitivos, vimos uma grande
mudança de paradigmas na fabricação do Macintosh, que passou a contar
com chips da Intel.
Por que a IBM optou por não continuar investindo nas inovações solicitadas pela Apple?
A IBM, possuindo outras oportunidades de mercado muito mais
lucrativas e com maior participação no seu negócio, percebeu que obteria
melhores resultados abrindo mão de inovar esta linha de chips demandada
apenas pela Apple e focando seus esforços nos negócios que realmente
lhe são mais lucrativos. Como vimos, às vezes, não insistir na inovação
de determinados produtos pode ser uma estratégia alternativa.
Outro grande perigo da inovação compulsiva é o aumento do estresse da decisão de compra.
Há no mercado muitas variações para um mesmo produto. Diante de, por
exemplo, oitenta opções de creme dental, um consumidor sente uma
ansiedade de decisão (decidir custa tempo) e, por mais que seja um
experimentador nato, ele tende a buscar diminuir o estresse elegendo uma
marca/opção e, uma vez obtendo satisfação, acaba fidelizando sua
escolha. No longo prazo este fenômeno faz com que o perfil dos
experimentadores torne-se gradativamente mais conservador.
Assim, quanto maior o volume de inovações em um curto espaço de
tempo, mais difícil ficará a partir de um determinado momento que os
consumidores queiram tão intensamente o novo em função do estresse de
decisão de compra e de uma racionalidade de compra crescente. Cada
inovação, a partir daí, terá que ser muito significativa e para
consegui-las teremos que investir corretamente em P&D.
Peter Drucker disse com sua sabedoria de sempre:
"A inovação
depende, ao mesmo tempo, de concepção e percepção. A inovação produtiva e
sistemática começa com a análise das oportunidades".
Precisamos analisar se estamos ampliando ou diminuindo as
oportunidades futuras introduzindo inovações de pequena relevância, que
possuem ciclos de vida cada vez mais curtos, e custam cada vez mais
caro. Isso pode funcionar no curto prazo, mas impossibilitar estratégias
de médio e longo prazo.
Estratégias não são como o vinho, ao contrário, são como as uvas e
possuem sua época própria. Consumi-las fora de época e sem refletir
sobre o futuro é ingenuidade e falta de planejamento. Nosso foco é obter
resultados crescentes para o negócio e não apenas a diferenciação dos
produtos e serviços. O futuro do negócio, para algumas empresas, pode
significar abandonar absolutamente estes produtos e serviços e até
migrar para outros mercados transformando a própria natureza do negócio.
No capitalismo, o capital migra sempre para onde estão as maiores
oportunidades de lucratividade.
A grande questão não é inovar, mas sim quando e como inovar e, quando
buscar outra estratégia. A busca obsessiva e irrefletida pela inovação
pode significar miopia estratégica.
O foco da inovação excessivamente centrada no produto não condiz com a
era pós-industrial. Enquanto insistem em inovar seus produtos, muitas
empresas não percebem que seria melhor inovar seu marketing, seu estilo
de gestão, sua imagem institucional e demais estratégias frente ao
mercado.
Nosso foco deve ser resultado e para obtê-lo devemos considerar que o
custo dos erros de um projeto hoje em dia comparado com o de dez anos
atrás é exponencialmente maior. Errar tornou-se infinitamente mais caro e
inadmissível. Portanto a decisão de inovar deve ser amplamente
refletida e não apenas um impulso frente à tendência atual.
Encontre, especificamente para a sua empresa e o seu negócio quais são as melhores estratégias. Inovação é apenas uma delas!
Recomendação de Leitura:
PORTER, Michael E. - Competição: Estratégias Competitivas Essenciais. São Paulo: Campus, 1999.
COLLINS, James e PORRAS, Jerry - Building Your Company's Vision: Harvard Business Review, 2000.
KOTLER, Philip - Administração de Marketing, 10a Edição. São Paulo, Pearson, 2000.