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Marcos Hashimoto
Marcos Hashimoto
Professor de Empreendedorismo na graduação e MBA do Insper Ibmec São Paulo, Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV, Consultor e palestrante. Exerceu cargos executivos em multinacionais como Citibank e Cargill Agrícola. Autor dos livros - Espírito Empreendedor nas Organizações e Lições de Empreendedorismo. Autor do software de plano de Negócios SP Plan. Professor visitante da Universidade do Texas em San Antonio e professor mentor do programa REE Fellows da Universidade de Stanford | www.marcoshashimoto.com

 
14/04/2011 - 18h51

Empreendedores e advogados, uma relação difícil

Para que servem advogados?
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA

Hoje é o dia em que iria realizar um grande evento para divulgar minha empresa e meus produtos. Ia ser lindo, uma palestra com um professor de uma escola renomada, um coffee break caprichado, uma sessão de debates sobre o assunto que minha empresa é especialista e depois a abertura oficial de uma grande campanha promocional dos meus produtos. Uma equipe de 30 representantes comerciais estaria a postos para atender toda a demanda que viria logo depois do evento. Todos os nossos parceiros estariam presentes. Acho que receberíamos umas 180 pessoas. Depois, iríamos colocar o evento na internet , no nosso site, para que mais pessoas possam ver a seriedade com que tratamos o assunto. Ia ser demais, íamos efetivamente nos posicionar de forma definitiva no mercado.

 

Porque eu não realizei este evento? Por causa do meu advogado. Até agora me arrependo de tê-lo consultado sobre o evento. Na verdade, eu apenas gostaria da visão dele sobre o contrato que eu estava fechando com o palestrante. No meio da conversa, ele viu que havia uma cláusula de cessão de direitos de imagem e me perguntou o porquê daquilo. Eu expliquei que era para divulgar no Youtube depois. Aí ele perguntou se eu também estava pedindo autorização de uso de imagem para as pessoas que viriam ao evento. ‘Os convidados?' perguntei. Diante da confirmação, eu falei que era uma bobagem sem sentido, como eu iria pedir para 180 pessoas assinarem um termo de direito de uso de imagem? Parecia ridículo e eu nunca vi isso em nenhum evento que participei. Afinal, quem vai aparecer seria o palestrante. O conteúdo é dele e é ele quem tem que autorizar que sua fala seja vista por mais pessoas.

 

Meu advogado insistiu. Disse que eu teria que me assegurar que ninguém a audiência aparecesse no vídeo, apenas o palestrante. ‘Isso é ridículo!', retruquei novamente. Para isso eu não preciso do evento, basta contratá-lo, gravar a palestra só com ele e publicar o vídeo. O interessante aqui é justamente mostrar a dimensão do evento, mostrar o auditório cheio, todos envolvidos na apresentação. Se não filmar as pessoas, perde o sentido. Meu advogado me alertou então dos riscos que eu correria de qualquer pessoa na audiência, ao se ver no vídeo na internet, entrar com uma ação de uso indevido de imagem e nos processar por isso.

 

Fiquei atônito. ‘Como assim? Porque alguém faria isso? Se aparecer alguma imagem desta pessoa, vai ser só de relance. Ninguém está lá fazendo qualquer coisa errada, é um evento profissional, só com executivos em uma situação de trabalho. Do que você está falando?' Ele reafirmou que o risco sempre existe e que o mais recomendável seria obter esta autorização de todos os presentes. Seguiu-se então um bate-boca no qual ele citou exemplos de processos movidos por pessoas filmadas na rua, que se sentiram constrangidas pelas imagens e que nunca podemos saber o que as pessoas pensam e por isso temos que nos preparar para tudo. Sobre o fato de que ninguém faz isso, ele foi categórico: "Eles não tinham um bom advogado que os assessorasse e correram riscos desnecessários. Como você sabe se este problema não aconteceu em algum destes eventos que você foi?"

 

Desisti do evento. Fiquei com medo. Mas fiquei pensando também. Para que servem advogados? Para nos implantar este medo? Para que nós tomemos a decisão de assumir o risco que ele identificou e ele lava suas mãos se o risco acontecer em uma postura do tipo ‘eu te avisei'? Até onde vai este compromisso dele com o que realmente faz sentido? Será que, se ele tivesse visão de negócio, se conhecesse melhor o impacto positivo do evento para o negócio, ainda assim olharia só o aspecto legal do risco ou saberia balancear melhor as duas visões e me dar conselhos mais efetivos? Este meu advogado se gaba de ser um dos melhores, conhece todas as leis, mantém-se sempre informado sobre tudo na sua área, possui vários cursos de especialização e é autor de vários livros sobre legislação. Se ele faz uma recomendação sob as bases legais, quem sou eu para contrariá-lo? Só que agora fico imaginando se é preferível ter o melhor advogado do Brasil ou ter o melhor advogado para o meu negócio. Enquanto não me resolvo, continuo tremendo toda vez que tenho que consultá-lo.



 



 
Comentários
Fabrizio | 28/04/2011 | 20h06
Olá Marcos, Chamou-me muita atenção seu artigo e acho que vale a pena meu comentário e gostaria que vc dissese o que vc acha disso. Vc tem um evento otimo, planejado, com tudo certo. O evento não aconteceu por falta de coragem de quem o dirige para peitar certos riscos, deixar que não cresça a marca que tanto ama e que tanto se dedicou por conta de um risco de um processo de imagem de alguma pessoa que estaria na platéia não faz muito sentido.
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